Turismo ecológico
Pessoal, pensando em reforçar o viés ambiental/ecológico da Fundação e, principalmente das Usinas-Parque, que possuem um potencial inesgotável para atividades nesse âmbito, posto aqui um texto sobre a observação de aves no contexto do ecoturismo. Gostaria de mostrar, através desse texto que foca o birdwathing, um pouco da importância e da viabilidade de iniciarmos um trabalho voltado ao acervo biológico da Fundação; reforço que tratei aqui de uma ínfima porção do que pode ser trabalhado em termos de ecologia e educação ambiental nos nossos Núcleos. Peço desculpas antecipadas pela extensão do artigo e justifico que perderia um pouco o sentido se eu reduzisse o seu tamanho.
Abraços a todos!
“A observação de aves e o turismo ecológico”
O birdwatching ou observação de aves é uma atividade que pode ser definida como uma “coleção de avistagens”. A observação realizada na natureza promove uma gratificante atividade de lazer e descontração, proporcionando aos praticantes recompensas intelectuais, recreativas e científicas (Andrade, 1997).
Essa atividade é ainda pouco executada no país e se restringe principalmente a grupos específicos, tais como associações de observadores de aves, criadores de pássaros e profissionais da área. Porém, em países de primeiro mundo como Estados Unidos e Inglaterra (e outros países do hemisfério norte), já vem sendo praticada de forma expressiva há muitos anos como hobby, em maioria por amadores. Este fato é aparentemente contraditório, já que esses países possuem uma riqueza de aves bem menor que os países tropicais.
Nos Estados Unidos existem cerca de 69 milhões de observadores de aves, os quais movimentam a economia dos diversos locais visitados. No Refúgio Nacional da Vida Silvestre Laguna Atascosa, no Texas (Estados Unidos), por exemplo, esta atividade atrai anualmente 48.000 observadores e pode gerar US$ 5,6 milhões de dólares por ano para o comércio local (Eubanks et al., 1995 apud Farias e Castilho, 2006). Estima-se que cerca de US$ 10 bilhões são gastos ao ano pelos birdwatchers ou observadores de aves norte-americanos (Revista Isto É, 2003).
Apesar da abundância de recursos naturais e atrativos, bem como a elevada riqueza da avifauna brasileira (terceira maior do mundo), o Brasil não está preparado para atender uma demanda nacional. Isto se deve, em parte, à grande deficiência de guias especializados, infra-estrutura disponível e, principalmente, à falta de uma iniciativa que venha promover esta atividade por meio da educação ambiental (Lopes e Santos, 2004). Estes gargalos impedem a expansão da atividade em níveis iguais ou superiores aos de países desenvolvidos com menores biodiversidades.
Apesar destas barreiras e, embora a prática em questão seja muito incipiente no país, existem alguns exemplos que podem ilustrar a aplicação do birdwatching como incentivo ao ecoturismo. No “Itamambuca Eco Resort”, próximo a Ubatuba - SP, foi criada uma trilha para observação de aves, guiada por placas explicativas, onde, além de pássaros, encontram-se hordas de guaiamuns (caranguejos azuis) e caxinguelês. No “Itamambuca”, assim como no “Hotel do Frade” (Angra dos Reis - RJ), os observadores seguem por conta própria as trilhas para observação, auxiliados pelas placas. Já no Refúgio Ecológico Caiman (Miranda – MS) no Pantanal, grupos de pelo menos dez pessoas, em qualquer época do ano, podem tentar avistar espécies conduzidos por um guia especializado. Outra que incentiva a prática é a “Pousada Ilha Splendor”, de Ilhabela, em São Paulo, que tem binóculos à disposição de seus hóspedes (Jornal de Piracicaba, 2007).
Atualmente, outras iniciativas vêm sendo tomadas no país com a intenção de aumentar o aproveitamento dos recursos e potenciais produtos turísticos locais, como forma de ampliar o leque de opções disponíveis ao público. Alguns estudos vêm sendo realizados por profissionais do ramo em conjunto com as comunidades locais, os quais tentam identificar, nas áreas de interesse, possíveis atrativos, tais como trilhas com elevada beleza cênica, locais estratégicos para implantação de mirantes e pontos de parada para a observação de aves.
Um exemplo que ilustra a situação supracitada é o projeto de criação do turismo no município de São José do Vale do Rio Preto – RJ (Martins et al., 2004), em que foi realizado um estudo das possibilidades para incremento do turismo na cidade, sendo que, dentro das opções levantadas, destacou-se a atividade de observação de aves (as quais são diversificadas e numerosas na região, onde existem paisagens naturais que contribuem para a manutenção e conservação de muitas espécies da avifauna) em áreas montanhosas, mirantes e pontos estratégicos em áreas planas. A idéia do projeto era despertar a consciência ecológica na população local e nos visitantes, proporcionar maior número de empregos, movimentar a economia local, e desenvolver a região norte do Estado do Rio de Janeiro através do turismo ecológico.
Portanto, a observação de aves pode, sem dúvida, se constituir numa ferramenta de atração turística, não apenas em áreas com grande extensão de matas, mas também em áreas rurais onde existam fragmentos de florestas nativas, tais como as RLs (Reservas Legais), as APPs (Áreas de Preservação Permanente) e as RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural). Nesses remanescentes florestais é possível encontrar um grande número de aves silvestres, inclusive espécies ameaçadas de extinção, dependendo da localização geográfica e do estado de conservação das matas.
O primeiro passo, antes mesmo de se divulgar a prática de observação de aves como uma atração turística, é a realização de um levantamento qualitativo na área de interesse para que se obtenha dados relacionados à composição de aves, tais como a riqueza, a listagem e a freqüência de ocorrência de cada espécie da comunidade, justamente para que se possa definir a importância da área em termos de biodiversidade no processo de atração turística.
Posteriormente, é imprescindível que exista um meio de transferência dessas informações ao público, como, por exemplo, guias impressos com a lista das principais espécies acompanhadas de fotos/ilustrações para que o próprio turista consiga identificá-las durante o caminhamento na área, capacitação de monitores para que sejam o veículo de transferência destas informações aos visitantes, trilhas interpretativas, dentre outros. No entanto, essas informações não devem ser passadas sem propósito, ou seja, é necessário conscientizar os visitantes sobre a importância desses animais e porque devem ser conservados, de forma a estimular um maior interesse sobre a atividade de observação.
Sendo assim, é fácil concluir que o birdwatching apresenta grandes vantagens como atrativo turístico, tanto em matas nativas quanto em áreas rurais com fragmentos florestais. Isto porquê a prática em questão apresenta custo de execução relativamente baixo – é preciso apenas um bom binóculo, um guia impresso para identificação das aves locais e/ou um monitor ambiental com adequada qualificação (principalmente em áreas florestais de grande extensão) e a disponibilidade de uma área onde exista uma comunidade de aves com potencial atrativo – e pode promover um desenvolvimento econômico expressivo (através da geração de empregos e diversificação da economia local). Além disto, é uma ferramenta de educação ambiental e de conservação da biodiversidade, já que favorece a consciência ecológica dos praticantes.
Samira Athiê
Biotemas, 20(4): 127-129, 2007.