A Educação Ambiental na atual Sociedade de Consumo.
Por Donizetti Aparecido Pinto
Nos últimos meses tornou-se comum nos depararmos pelos meios de comunicação com noticias alarmantes sobre a crise do capitalismo que afeta a todos indiscriminadamente. É interessante notar como os defensores do livre mercado imploram desesperadamente pela ajuda do estado. E mais essa crise evidência a importância vital do consumo para a manutenção do “status quo”.
O interessante de se notar é que na dinâmica do capitalismo o consumo sempre foi relegado a plano secundário e nesse inicio de século ele desponta como elemento fundamental do sistema econômico, não fosse assim, não teríamos governos injetando bilhões de dólares no sistema bancário para incentivar os créditos, e mesmo em nosso país o presidente vindo a público pedir à população consumir.
Nesse pequeno artigo procuro associar a demanda consumista à crise sócio ambiental, a Educação enquanto elemento de formação do cidadão frente a essa crise e o papel da mídia inserida na Indústria Cultural como elemento criador e incentivador de necessidades mantenedoras da rotatividade: indústria – mercado – consumo.
Dado serem provenientes da natureza os recursos necessários à sobrevivência humana e também ao seu conforto torna-se compreensível os problemas ambientais, pois a utilização irracional dos recursos naturais implica na completa subordinação da natureza às necessidades humanas, dessa forma a crise sócio ambiental que atinge a humanidade foi gerada por ela mesma como conseqüência da concepção cartesiana de nos tornarmos senhores e possuidores da natureza.
Quando nos deparamos com essa realidade: a do homem possuidor da natureza e com todos os poderes sobre a mesma, podemos indagar e nos indignar diante das proporções desastrosas para a humanidade e para todos os outros seres das práticas, justificativas e avanços tecnológicos produzidos para o efetivo controle do homem sobre a natureza no sentido de dominá-la para cada vez mais sofisticar seu conforto. Além do que, o possuir, não é comum a todos os homens, tampouco a uma maioria, trata-se de uma minoria detentora dos direitos de exploração dos recursos naturais transformando-os em produtos que a poderosa indústria mediática se encarrega de transformar em necessidades inerentes a uma vida “saudável e feliz”, que proporcionará a plena realização do individuo, dependendo, é claro, da sua capacidade (recursos) para o consumo.
O papel do consumo no crescimento econômico e na degradação ambiental parece funcionar como uma ponte que liga esses dois processos inerentes à dinâmica da sociedade atual. Ao passo que se mostra como função necessária ao modelo econômico capitalista, o consumo é considerado como uma das principais causas da atual situação de risco em que vivemos, devido ao esgotamento dos recursos naturais e a poluição.
No inicio dos anos 70 do séc. XX, as primeiras discussões sobre os problemas ambientais giravam em torno do estilo de produção dos paises industrializados. Até então o desenvolvimento econômico estava nas pautas de discussão e serviam de guias para a formulação de políticas econômicas de muitos paises. Porém o conceito de desenvolvimento estava ligado ao de crescimento econômico, modernização e consumo, que buscavam figurar como marcas da economia capitalista frente à economia planificada dos paises socialistas.
“Por isso estes conceitos estão muito vinculados à afirmação da hegemonia norte-americana no pós-guerra e à expansão da Europa capitalista em competição com o socialismo soviético, disputando a influência sobre os novos estados-nações, particularmente na Ásia e na África gerados pelos movimentos anticoloniais, mas também na América Latina”. (SCOTTO, CARVALHO, GUIMARÂES, 2007).
O fenômeno do consumo na sociedade capitalista ganha dimensões políticas e sociais, com valores findados no modo de vida da sociedade moderna, resultado de quase três séculos de industrialização constante do modo de produção e de todas as mudanças na vida social dos indivíduos que esse modelo implica.
Jean Baudrillard em sua celebre obra intitulada A Sociedade de Consumo, leva-nos a uma reflexão sobre a liberdade do consumidor na hora de decidir pelo produto ambientalmente correto, se configura, conforme Baudrillard, numa liberdade aparente, uma liberdade que se restringe a, justamente, escolher os produtos que estão sendo ofertados no mercado, e, portanto, que seguem os padrões estabelecidos pelo setor produtivo. Sofrendo ainda, as influências provocadas pelos padrões de vida das classes abastadas, e o poder da mídia no exercício dessa influência.
Quando nos deparamos com o enorme poder da mídia que usando os recursos da Indústria Cultural dissemina uma cultura similar da formação, isto é a semiformação podemos nos reportar a Oliveira que diz:
“Trata-se de um embate desigual em que toda a força parece concentrar-se num dos pólos, justamente o lado contrário à verdadeira formação. O enorme poderio dos “mass-media” congrega todos os recursos técnicos da Industria Cultural e dissemina um sucedâneo da formação, a chamada “semiformação cultural”. (OLIVEIRA, 2001).
Sendo o ato de educar um ato de formação, de humanização do homem podemos dimensionar o quão árido é o caminho a percorrer e o quão hostil torna-se essa tarefa, ainda segundo Oliveira:
“Há um jogo de forças em contínua tensão que caracteriza essa função humana fundamental em que se destaca a necessidade de, ao mesmo tempo, preservar e modificar. O quadro se torna mais complexo quando inserido na atual sociedade administrada, saturada de informações profusas, fragmentadas e desconexas”.(OLIVEIRA, 2001).
Como ensinar, como formar, de que forma se dá o processo educativo em uma sociedade onde nos deparamos com inimigo tão poderoso capaz de seduzir, usando mil faces para agir, marcar sua presença e exercer sua atração?
O capitalismo na sua sutileza transforma em armas as oposições que sofre. Conforme citação de Oliveira, Marx já apontava que o modo de pensar das classes dominantes é o modo de pensar dominante numa determinada formação social, e ainda segundo Oliveira:
[…] “de geração a geração ou talvez até mais aceleradamente, de tempos em tempos cada vez mais próximos, o modo de pensar e de sentir a existência cotidiana vai se alterando. Comportamentos que encontravam protestos num período vão se instalando e adquirindo garras nos períodos seguintes. Tudo se revoluciona nos movimentos do capital. Tudo se torna simples mercadoria, pronta para consumo, mas destituída de traços realmente significativos. (OLIVEIRA, 2001).
A semiformação é um subproduto da Indústria Cultural e tudo que se relaciona com a formação do cidadão não esta isenta da influência dessa Indústria uma vez que o mercado precisa de consumidores para dar vazão aos seus produtos e cumprir seu papel de ser um dos baluartes do capitalismo em sua fase neoliberal, nesse sentido a escola, que segundo Saviani tem sua origem a partir do advento da sociedade de classes e desde então se adequa às necessidades de manutenção do poder instalado cumpre também seu papel de formadora do cidadão apto a aceitar e contribuir para o “progresso” da humanidade. A escola então esta ligada às necessidades pertinentes à sociedade moderna vinculada à vida nas cidades, à indústria e ao consumo. Temos então conforme Saviani que:
“A forma escolar emerge como forma dominante de educação na sociedade atual. Isto a tal ponto que a forma escolar passa a ser confundida com a educação propriamente dita, a tal ponto que hoje, quando pensamos em educação, automaticamente pensamos em escola. É por isso que quando se levantam bandeiras em prol da educação, o que esta em causa é o problema escolar”. (SAVIANI, 1988).
Vimos nos parágrafos e citações acima o poder de articulação da sociedade para manter sua estrutura de dominação de classes, na qual o individuo é apenas uma peça na engrenagem da máquina social, sendo obrigado a adequar se às funções econômicas necessárias à manutenção dessa sociedade e, vimos também, como a escola, local privilegiado de formação do cidadão, esta inserida nesse processo, e se considerarmos, como afirma Santana, que em se tratando da Educação Ambiental, trata-se antes de tudo de Educação e, como tal, cabe-nos verificar o que a justifica e a torna necessária.
[…] “que neste processo há possibilidades tanto de domínio, de opressão quanto de liberdade, de autonomia, a educação poderá seguir numa direção ou noutra; ela possui, portanto, certa ambigüidade e, assim, possibilita certas opções que podem ser assumidas”. (SANTANA, 2000).
A educação é um processo inerente ao ser humano, desde que nasce na vivência com a família, nas relações sociais e no contato com o meio ambiente ele vai absorvendo conhecimentos acumulados historicamente pelos outros homens seja culturalmente, politicamente ou economicamente, diante disso é impossível analisar a educação isolada do meio social.
Portanto a educação não ocorre somente na escola, dentro da sala de aula em lugar determinado para isso, outros espaços podem também cumprir essa função, e é nessa dimensão de espaços alternativos, podendo ou não estar articulado com os espaços formais de educação que vejo a possibilidade de se assumir outras opções para a Educação Ambiental.
Essas opções não precisam ser criadas ou inventadas, já estão presentes em nosso universo social e norteiam alguns educadores que optaram pela educação libertadora e emancipadora, faz-se necessário viabiliza-las enquanto práticas educativas, respeitando-se, como nos ensina Paulo Freire: a autonomia, a dignidade e a identidade do educando, caso contrário, o ensino tornar-se-á inautêntico, palavreado vazio e inoperante. E isto só é possível tendo em conta os conhecimentos adquiridos de experiências feitas pelas crianças e adultos antes de chegarem à escola. Só assim, diz ele, nascerá um clima de respeito mútuo e disciplina saudável entre a autoridade do educador e as liberdades dos alunos, reinventando o ser humano na aprendizagem de sua autonomia. Conseqüentemente, não se poderá separar prática de teoria, autoridade de liberdade, ignorância de saber, respeito ao professor de respeito aos alunos, ensinar de aprender.
Donizetti Aparecido Pinto é coordenador do Museu da Energia de Jundiaí e especialista em Educação Ambiental.
De quem é a responsabilidade?
Vivemos em uma sociedade tecnológica, a partir da Revolução Industrial, houve uma “explosão” do progresso, revertendo assim certos valores de nossa sociedade. De lá para cá a meta é progredir, não importa sua área de atuação o que importa é avançar, essa idéia pelo avanço nos tornou obsessivos nos fazendo esquecer das conseqüências desses impactos causados no ambiente.
Pessoas de médias e grandes cidades estão acostumadas ao ambientes urbanos, na maioria das vezes desconhecem os ambientes naturais, os quais deveríamos cuidar como um grande patrimônio.
Por isso a Educação Ambiental nos vem com um propósito de inserir na vida das pessoas esses valores ambientais que foi perdido pela sociedade moderna. A Educação Ambiental vem como um ensino abrangente para conseguir atingir a todos os cidadãos. Um trabalho árduo e difícil, pois como o comodismo consumista já esta em nosso sangue, e assim formulamos resposta agradáveis a nós para perguntas como, por que devemos comprar produtos “in natura” sendo que o industrializado é mais prático? Para que economizar água e luz já que meus vizinhos não economizam?
Mas nossas respostas agradáveis como sabemos não são verídicas, as verdadeiras respostas agora que estão vindo à tona, com poluição dos cursos de água, a falta de água, desmatamentos, poluição do solo, do ar e outros impactos nocivos ao ambiente, isso que deveria vir a nossas cabeças quando compramos as praticas “embalagens de isopor”.
São esses valores que a Educação Ambiental traz as pessoas, mas quem é responsável por disseminar esses conhecimentos? Minha responsabilidade? Sua? Sim é responsabilidade de todos. Pois por isso ela vem a ser subdividida em formal e informal.
A Educação Ambiental Formal vem a ser aquela passada a nós nas unidades de ensino, desde a pré-escola a cursos superiores. A informal é passada a nós em vários formatos, para que possamos atingir todos os tipos de pessoas, de níveis de escolaridade, de idades, essa Educação Ambiental informal está presente nas conversas do dia-a-dia, nos veículos de comunicação, jornais, revistas, televisão, para que assim possa atingir a todas as pessoas.
Rafael Augusto
Estagiário do Museu da Energia Usina Parque de Salesópolis
O consumo interfere com a vida das pessoas, pois é envolvente e sedutor, e faz com que elas sintam necessidade de consumir em demasia.
Muitas vezes o consumo esta associado mais pelo poder da propaganda e da força atrativa que envolve as pessoas, e isto é uma arma do sistema capitalista que lança além do visual envolvente propagandas que chamam a atenção no sentido de instigar o consumo sempre mais e mais, diante disso precisamos ter uma visão critica.
Hoje o consumo faz parte do cotidiano, pois é uma realidade dessa atual sociedade.E a partir do consumo exagerado o meio ambiente sofre consequencias com a extração de matéria prima para a produção de produtos ofertados no mercado.A nós educadores cabe a missão de seduzir com a educação ambiental, assim como nos deixamos seduzir , a mesma deveria ser sedutora no sentido de envolver e sensibilizar as pessoas de como cada um tem responsabilidade em relação a natureza e tudo que se relaciona com o meio ambiente, pois o homem e natureza não se separam.
Equipe Museu da Energia de Jundiaí.
Achei o texto muito bom e bastante interessante para as discussões do GT educativo da Fundação. Além disso, muito pertinente, também, neste momento de “crise global” (considerando-se a gravidade dela alarmada pela grande midia, porém difícil de ser percebida no cotidiano de quem não vive de especulações financeiras), em que o governo, além de incentivar os créditos conforme observado no texto, isentar alguns produtos da cobrança de alguns impostos, como por exemplo, a isenção de IPI para automóveis, eletrodomésticos e material de construção, no intuito de incentivar o consumo. Lembrando que é ele, o consumo, que faz o “meio de campo” entre crescimento econômico e degradação ambiental, também conforme o texto.
também achei bastante pertinente apontar no texto a concepção do homem como “possuidor da natureza e com todos os poderes sobre a mesma” o que nos remete a pensar que nós (homens e mulheres, seres humanos) nos vemos como algo diferente da natureza, ou seja, a vemos e intervimos nela “de fora dela” como se dela não fizessemos parte, diferentemente de sociedade tradicionais (americanas, africanas ou asiáticas) que se vêem com parte da natureza, sabem que também fazem parte dela e por isso a respeitam, pois para elas respeitar a natureza é respeitar a humanidade. Nós, ao contrários, nos desrespeitamos ao desrespeitarmos a natureza.
Alcides - NDP
Donizetti, o seu pequeno artigo sintetiza e encaminha questões fundamentais relacionadas à educação e ao meio ambiente. Você aborda o problema relacionado aos valores que são transmitidos no processo de construção do conhecimento e no processo de troca de informações nas relações sociais. Atualmente, sobressaem os valores dados pela lógica do mercado, no qual adquirir produtos mostra-se fundamental para a realização do ser humano. Mas existem outras opções de valores e temos, realmente, a obrigação de apresentar para a sociedade que estes outros valores existem. Ou seja, precisamos mostrar que existem outras opções e outros caminhos possíveis que não o ditado pelo mercado. É aí justamente, onde está a construção do novo, a recriação, defendida por Paulo freire. Para renovar precisamos primeiro entender a realidade na qual estamos inseridos, detectar os problemas para, então, propor soluções. Assim como você indica no seu texto, temos que tentar enxergar além dos muros do discurso da sustentabilidade defendida atualmente e que foi amplamente abraçada pelo mercado. Temos várias questões para começar a pensar. Quais valores defendemos? Quais opções e caminhos preferimos diante ao que nos é apresentado?
Outro ponto fudamental que foi abordado apresenta que a educação é um processo constante e que não ocorre somente na escola. Isto também precisa ser apresentado para a sociedade que geralmente vê a escola como única fonte de “transmissão” do saber. Nossa sociedade atribui importância tão grande à família, mas em outro sentido esqueceu que é esta mesma instituição a principal responsável pela formação, transferência e constante reconstrução dos valores sociais e joga, na escola, toda responsabilidade do fracasso do processo educativo. Parece que a origem do problema está bem longe do ambiente escolar.
Maria Blassioli
Vivemos uma época em que o imediatismo, o consumismo e o comodismo estão tomando conta da sociedade. Se por um lado, o número de instituições de cunho social e ambiental e de pessoas preocupadas com o meio ambiente vêm aumentando, por outro, a população humana continua crescendo alucinadamente no mundo.
Um terço dos chamados recursos naturais do planeta foram exauridos no último século, sendo que apenas os Estados Unidos têm sido responsáveis por 30% do consumo desses recursos. Consequentemente, a quantidade de lixo produzida pelos norte-americanos, dentre outros países desenvolvidos, é extremamente alta (2 kg por pessoa/dia e 30% do lixo mundial!).
As pessoas nunca trabalharam tanto – muitas possuem mais de um emprego -, nunca consumiram tanto e nunca produziram tanto lixo. Entramos num círculo vicioso que não tem sentido: trabalhando-se mais é possível aumentar a renda, com uma renda maior pode-se consumir mais – e consumindo-se mais produz-se mais lixo. E esse círculo é, em grande parte, alimentado pela mídia: diariamente somos bombardeados com centenas e até milhares de propagandas, as quais nos convencem que nosso guarda-roupa está fora de moda, que nossos eletrodomésticos estão ultrapassados, que nossos computadores e celulares não apresentam tecnologia suficiente e etc. É a chamada obsolescência percebida: substituímos nossos bens materiais em perfeito estado, porque somos convencidos de que precisamos trocá-los por outros mais bonitos e com mais funções (que muitas vezes nem usamos).
Quando não substituímos algo em perfeito estado, entra em ação a obsolescência programada: os bens “duráveis” já não são tão duráveis como antigamente, e isso é proposital, já que é uma forma de manter a máquina do consumo sempre ativa.
E quem sofre com isso? O nosso meio ambiente (incríveis 90% de tudo o que adquirimos vai para o lixo em menos de 6 meses após a compra) e os trabalhadores braçais das grandes empresas, que geralmente trabalham muito e ganham pouco, além de ficarem expostos a ameaças constantes (manuseio de produtos cancerígenos e máquinas de alta periculosidade, dentre outros).
E como reduzir a velocidade dessa máquina alucinada de consumo? O primeiro passo é reconhecer o poder das grandes corporações e admitir que estamos sendo enganados; que não precisamos comprar tudo o que querem nos vender. É questionar, antes de adquirir um produto: “eu realmente preciso dele?”. Se a resposta sincera for “não”, então não consuma, não compre – faça sua revolução individual! Se cada um de nós fizer a sua “revolução individual”, teremos uma grande (R)EVOLUÇÃO.
Equipe Museu da Energia Usina-Parque do Corumbataí