5 de Agosto de 2009

A Educação Ambiental na atual Sociedade de Consumo.

Publicado por MUSEU DA ENERGIA DE JUNDIAI em

Por Donizetti Aparecido Pinto

Nos últimos meses tornou-se comum nos depararmos pelos meios de comunicação com noticias alarmantes sobre a crise do capitalismo que afeta a todos indiscriminadamente. É interessante notar como os defensores do livre mercado imploram desesperadamente pela ajuda do estado. E mais essa crise evidência a importância vital do consumo para a manutenção do “status quo”.
O interessante de se notar é que na dinâmica do capitalismo o consumo sempre foi relegado a plano secundário e nesse inicio de século ele desponta como elemento fundamental do sistema econômico, não fosse assim, não teríamos governos injetando bilhões de dólares no sistema bancário para incentivar os créditos, e mesmo em nosso país o presidente vindo a público pedir à população consumir.
Nesse pequeno artigo procuro associar a demanda consumista à crise sócio ambiental, a Educação enquanto elemento de formação do cidadão frente a essa crise e o papel da mídia inserida na Indústria Cultural como elemento criador e incentivador de necessidades mantenedoras da rotatividade: indústria – mercado – consumo.
Dado serem provenientes da natureza os recursos necessários à sobrevivência humana e também ao seu conforto torna-se compreensível os problemas ambientais, pois a utilização irracional dos recursos naturais implica na completa subordinação da natureza às necessidades humanas, dessa forma a crise sócio ambiental que atinge a humanidade foi gerada por ela mesma como conseqüência da concepção cartesiana de nos tornarmos senhores e possuidores da natureza.
Quando nos deparamos com essa realidade: a do homem possuidor da natureza e com todos os poderes sobre a mesma, podemos indagar e nos indignar diante das proporções desastrosas para a humanidade e para todos os outros seres das práticas, justificativas e avanços tecnológicos produzidos para o efetivo controle do homem sobre a natureza no sentido de dominá-la para cada vez mais sofisticar seu conforto. Além do que, o possuir, não é comum a todos os homens, tampouco a uma maioria, trata-se de uma minoria detentora dos direitos de exploração dos recursos naturais transformando-os em produtos que a poderosa indústria mediática se encarrega de transformar em necessidades inerentes a uma vida “saudável e feliz”, que proporcionará a plena realização do individuo, dependendo, é claro, da sua capacidade (recursos) para o consumo.
O papel do consumo no crescimento econômico e na degradação ambiental parece funcionar como uma ponte que liga esses dois processos inerentes à dinâmica da sociedade atual. Ao passo que se mostra como função necessária ao modelo econômico capitalista, o consumo é considerado como uma das principais causas da atual situação de risco em que vivemos, devido ao esgotamento dos recursos naturais e a poluição.
No inicio dos anos 70 do séc. XX, as primeiras discussões sobre os problemas ambientais giravam em torno do estilo de produção dos paises industrializados. Até então o desenvolvimento econômico estava nas pautas de discussão e serviam de guias para a formulação de políticas econômicas de muitos paises. Porém o conceito de desenvolvimento estava ligado ao de crescimento econômico, modernização e consumo, que buscavam figurar como marcas da economia capitalista frente à economia planificada dos paises socialistas.
“Por isso estes conceitos estão muito vinculados à afirmação da hegemonia norte-americana no pós-guerra e à expansão da Europa capitalista em competição com o socialismo soviético, disputando a influência sobre os novos estados-nações, particularmente na Ásia e na África gerados pelos movimentos anticoloniais, mas também na América Latina”. (SCOTTO, CARVALHO, GUIMARÂES, 2007).
O fenômeno do consumo na sociedade capitalista ganha dimensões políticas e sociais, com valores findados no modo de vida da sociedade moderna, resultado de quase três séculos de industrialização constante do modo de produção e de todas as mudanças na vida social dos indivíduos que esse modelo implica.
Jean Baudrillard em sua celebre obra intitulada A Sociedade de Consumo, leva-nos a uma reflexão sobre a liberdade do consumidor na hora de decidir pelo produto ambientalmente correto, se configura, conforme Baudrillard, numa liberdade aparente, uma liberdade que se restringe a, justamente, escolher os produtos que estão sendo ofertados no mercado, e, portanto, que seguem os padrões estabelecidos pelo setor produtivo. Sofrendo ainda, as influências provocadas pelos padrões de vida das classes abastadas, e o poder da mídia no exercício dessa influência.
Quando nos deparamos com o enorme poder da mídia que usando os recursos da Indústria Cultural dissemina uma cultura similar da formação, isto é a semiformação podemos nos reportar a Oliveira que diz:
“Trata-se de um embate desigual em que toda a força parece concentrar-se num dos pólos, justamente o lado contrário à verdadeira formação. O enorme poderio dos “mass-media” congrega todos os recursos técnicos da Industria Cultural e dissemina um sucedâneo da formação, a chamada “semiformação cultural”. (OLIVEIRA, 2001).
Sendo o ato de educar um ato de formação, de humanização do homem podemos dimensionar o quão árido é o caminho a percorrer e o quão hostil torna-se essa tarefa, ainda segundo Oliveira:
“Há um jogo de forças em contínua tensão que caracteriza essa função humana fundamental em que se destaca a necessidade de, ao mesmo tempo, preservar e modificar. O quadro se torna mais complexo quando inserido na atual sociedade administrada, saturada de informações profusas, fragmentadas e desconexas”.(OLIVEIRA, 2001).
Como ensinar, como formar, de que forma se dá o processo educativo em uma sociedade onde nos deparamos com inimigo tão poderoso capaz de seduzir, usando mil faces para agir, marcar sua presença e exercer sua atração?
O capitalismo na sua sutileza transforma em armas as oposições que sofre. Conforme citação de Oliveira, Marx já apontava que o modo de pensar das classes dominantes é o modo de pensar dominante numa determinada formação social, e ainda segundo Oliveira:
[…] “de geração a geração ou talvez até mais aceleradamente, de tempos em tempos cada vez mais próximos, o modo de pensar e de sentir a existência cotidiana vai se alterando. Comportamentos que encontravam protestos num período vão se instalando e adquirindo garras nos períodos seguintes. Tudo se revoluciona nos movimentos do capital. Tudo se torna simples mercadoria, pronta para consumo, mas destituída de traços realmente significativos. (OLIVEIRA, 2001).
A semiformação é um subproduto da Indústria Cultural e tudo que se relaciona com a formação do cidadão não esta isenta da influência dessa Indústria uma vez que o mercado precisa de consumidores para dar vazão aos seus produtos e cumprir seu papel de ser um dos baluartes do capitalismo em sua fase neoliberal, nesse sentido a escola, que segundo Saviani tem sua origem a partir do advento da sociedade de classes e desde então se adequa às necessidades de manutenção do poder instalado cumpre também seu papel de formadora do cidadão apto a aceitar e contribuir para o “progresso” da humanidade. A escola então esta ligada às necessidades pertinentes à sociedade moderna vinculada à vida nas cidades, à indústria e ao consumo. Temos então conforme Saviani que:
“A forma escolar emerge como forma dominante de educação na sociedade atual. Isto a tal ponto que a forma escolar passa a ser confundida com a educação propriamente dita, a tal ponto que hoje, quando pensamos em educação, automaticamente pensamos em escola. É por isso que quando se levantam bandeiras em prol da educação, o que esta em causa é o problema escolar”. (SAVIANI, 1988).
Vimos nos parágrafos e citações acima o poder de articulação da sociedade para manter sua estrutura de dominação de classes, na qual o individuo é apenas uma peça na engrenagem da máquina social, sendo obrigado a adequar se às funções econômicas necessárias à manutenção dessa sociedade e, vimos também, como a escola, local privilegiado de formação do cidadão, esta inserida nesse processo, e se considerarmos, como afirma Santana, que em se tratando da Educação Ambiental, trata-se antes de tudo de Educação e, como tal, cabe-nos verificar o que a justifica e a torna necessária.
[…] “que neste processo há possibilidades tanto de domínio, de opressão quanto de liberdade, de autonomia, a educação poderá seguir numa direção ou noutra; ela possui, portanto, certa ambigüidade e, assim, possibilita certas opções que podem ser assumidas”. (SANTANA, 2000).
A educação é um processo inerente ao ser humano, desde que nasce na vivência com a família, nas relações sociais e no contato com o meio ambiente ele vai absorvendo conhecimentos acumulados historicamente pelos outros homens seja culturalmente, politicamente ou economicamente, diante disso é impossível analisar a educação isolada do meio social.
Portanto a educação não ocorre somente na escola, dentro da sala de aula em lugar determinado para isso, outros espaços podem também cumprir essa função, e é nessa dimensão de espaços alternativos, podendo ou não estar articulado com os espaços formais de educação que vejo a possibilidade de se assumir outras opções para a Educação Ambiental.
Essas opções não precisam ser criadas ou inventadas, já estão presentes em nosso universo social e norteiam alguns educadores que optaram pela educação libertadora e emancipadora, faz-se necessário viabiliza-las enquanto práticas educativas, respeitando-se, como nos ensina Paulo Freire: a autonomia, a dignidade e a identidade do educando, caso contrário, o ensino tornar-se-á inautêntico, palavreado vazio e inoperante. E isto só é possível tendo em conta os conhecimentos adquiridos de experiências feitas pelas crianças e adultos antes de chegarem à escola. Só assim, diz ele, nascerá um clima de respeito mútuo e disciplina saudável entre a autoridade do educador e as liberdades dos alunos, reinventando o ser humano na aprendizagem de sua autonomia. Conseqüentemente, não se poderá separar prática de teoria, autoridade de liberdade, ignorância de saber, respeito ao professor de respeito aos alunos, ensinar de aprender.

Donizetti Aparecido Pinto é coordenador do Museu da Energia de Jundiaí e especialista em Educação Ambiental.